quarta-feira, 6 de junho de 2012

PRIMEIRAS IMPRESSÕES - O CORAÇÃO DAS TREVAS




Selo Landmark
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O CORAÇÃO DAS TREVAS
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
06/06/2012
POR WOLFGANG FÊNIX
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"Por várias vezes, já longe dali, pensei naquelas duas como guardiãs das portas da Escuridão, tricotando a lã preta como se fosse uma dura mortalha, uma delas conduzindo e conduzindo continuamente para o desconhecido e a outra escrutinando os rostos tolos e sorridentes com os seus velhos olhos indiferentes. Ave! Velha tricoteira de lã preta. Morituri te salutant. Muitos destes que ela contemplou não foram capazes de vê-la novamente..."


(trecho extraído da página 18 - O Coração das Trevas - Edição Bilíngue do selo LandMark.)




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Abaixo incorporamos a trilha sonora do filme Apocalypse Now para acompanhar a sua leitura. Caso não goste de ler enquanto ouve música basta desligar o aplicativo da rádio. Esperamos que goste da novidade - mas caso não goste não deixe de comentar no POST para que possamos produzir postagens cada vez mais agradáveis para você leitor. Também é necessário avisar que esta postagem possui alguns trechos da obra - que não chegam a ser spoilers por não revelar o desfecho da mesma -, mas como há quem não goste de entrever nem mesmo trechos de um livro antes de ler, deixamos aí o aviso.

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COMO CONHECI A OBRA

A história de como tomei conhecimento desta obra remonta anos ao meu passado - sim sim, um passado remoto, porém o qual é habitado por muitas coisas que me marcaram; uma delas era o meu refugio no colégio público no qual terminei o segundo e terceiro ano do ensino médio - a biblioteca. E foi nesta biblioteca que vi pela primeira vez aquele livro velho - com uma velha encadernação - e um título forte que despertou meu interesse: O Coração das Trevas.

Joseph Conrad
Mas eu não estava pronto - talvez ainda não esteja - para a escrita intensa e notória de Joseph Conrad. Folheei o velho livro e me detive em algumas de suas páginas... "Fala de um marinheiro... E de suas memórias... Não é tão legal como havia pensado a principio..." Isto foi o que pensei à época e você leitor, deve perdoar a minha infante ignorância de então, pois eu era um jovem de seus 16 ou 17 anos que estava interessado unicamente em literatura fantástica e tudo o que esta tinha que me fizesse sair do mundo real - ao invés de me mergulhar ainda mais nele.


Ora, de fato eu era um infante, pois na época eu não sabia o quão fantástico - e terrível - poderia ser o mundo real e suas mazelas.

Muitos anos se passaram e eu tornei a ouvir uma menção a este livro e eis que minha curiosidade aguçou-se novamente; enfim eu encararia aquele livro e a viagem que ele guardava para mim - a viagem que de certo modo é inspirada na vida de seu próprio autor - Joseph Conrad - ou na parte mais sombria de sua vida.


ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A OBRA

Do que fala O Coração das Trevas?

Fala sobre a colonização da Africa e fala também sobre a condição humana diante do terror do holocausto provocado pela ganância das pessoas.

O livro foi escrito e publicado  primeiramente pela Maga (formalmente conhecida como "Blackwood's Edinburgh Magazine", a Maga foi uma das mais importantes revistas literárias da Inglaterra) em três capítulos mensais entre fevereiro e abril de 1899.

Joseph Conrad narra a história de Marlow, que durante uma viagem na qual ele descia o Tâmisa a bordo de um veleiro chamado Nellie, passa a rememorar uma outra viajem; ocorrida quando ele ainda era jovem, e na qual ele foi designado a conduzir outra embarcação até o coração da Africa com o intuito de encontrar um homem chamado Kurtz.

Nesta história - uma lembrança - Marlow acaba contando uma outra história, a de Kurtz e tudo o que este representa; um homem  formidável segundo o que todos diziam e também o maior comerciante de marfim de toda a região.

Mas Kurtz era muito mais que um homem branco com ideias avançadas sobre a Africa...

Ed. Bilíngue - Selo Landmark
"Ele é um prodígio. Ele é um emissário da misericórdia, da ciência, do progresso e quem sabe mais do quê. Precisamos, para nos guiar para a causa a qual fomos confiados pela Europa, por assim dizer, de uma inteligência superior, ampla compreensão e uma simplicidade de propósitos." - pág. 34 - edição bilíngue do sele Landmark.

Lemos em certa altura esta descrição sobre Kurtz ou sobre o que ele representa, ou ambos; ele é um norte para os ideais da Europa em relação à Africa - que era então uma colônia de exploração, assim como muitos outros lugares do mundo também o foram; o Brasil por exemplo, e muitos ainda o são.

Que tipo de emissário da misericórdia é este que usa os nativos como animais de carga para satisfazer os ideias da Europa?

Que tipo de ciência é essa que  esta de acordo com a escravidão e a exploração - nas quais não há escrúpulo que justifique tais métodos.

Que tipo de progresso é esse que levava riqueza para a Europa à custa do sangue de muitas vidas; homens, mulheres e crianças vitimas de doenças, fome e morte pela exaustão e maus tratos? A que futuro este progresso pode levar?

Esta é a capa da qual mais gostei.
Durante a narrativa de Marlow, vemos que este vai descobrindo aos poucos quem é - ou o que é - Kurtz. Marlow vai adentrando cada vez mais "O Coração das Trevas" a medida em que se aproxima disto; a verdade cuja presença podia ser sentida por ele desde o momento em que empreendeu aquela viagem - mas não a viagem à Africa; antes de tudo falo da viagem que ele empreendeu à compreensão da condição humana sobre aquele aspecto da ambição e da ganância humanas, que  são responsáveis pelo horrores que ele testemunhará durante todo o seu percurso.

Vemos isso logo no inicio, uma discrepância entre o que era dito na Europa sobre o que se fazia na Africa e aquilo que de fato era feito. Vemos isso no momento em que Marlow se despede de uma tia:


"...parecia que eu seria um dos Trabalhadores, com T maiúsculo, vocês sabem. Algo semelhante a um emissário da luz, ou a um tipo menor de apóstolo. Havia muito desse tipo de sandice circulando àquela época, tanto impresso quando falado, e uma excelente mulher, vivendo corretamente no meio de tanto engodo, acabou por deixar se levar. Ela falou tanto em 'livrar aqueles milhões de ignorantes daqueles horríveis vícios', que, acreditem, deixaram-me muito desconfortável. Cheguei mesmo a insinuar-lhe que a Companhia buscava apenas lucros, isso sim".(pág.20).

Então quando Marlow chega ao primeiro entreposto do qual partirá em seguida para o interior da Africa ele vê, antes de qualquer outra coisa, o que ele chama de o "Bosque da Morte":

"Formas negras se agachavam, se recostavam e se sentavam entre as árvores, recostando-se contra os troncos, agarrando-se à terra, metades visíveis, metades apagadas dentro da penumbra, todas elas em atitudes de dor, de abandono e de desespero..."

Esta ainda é uma história recente - infelizmente.
"Eles estavam morrendo lentamente - isso era bem claro. Eles não eram inimigos, eles não eram criminosos, eles não eram nada mais na terra, além de sombras negras de doenças e fome, lançados de maneira confusa dentro de trevas esverdeadas.  Trazidos de todos os recessos da costa, dentro de toda legalidade  de contratos temporários, perdidos nas cercanias incompatíveis, alimentados com uma comida desconhecida, eles adoeciam, tornavam-se ineficientes e, então, lhes era permitido rastejar até ali e descansar. Essas formas moribundas eram livres como o ar e, tão transparentes como ele." (pág. 24 e 25 - O Coração das Trevas - Edição Bilíngue do selo LandMark)

Então, logo de inicio, Marlow vê a grande diferença entre o que as palavras da Europa pregavam - uma nobre causa; a cristianização dos primitivos nativos; apenas como uma desculpa para a exploração das riquezas da Africa em nome da Europa - para o que as ações dos colonizadores mostravam; a morte.

Outro aspecto que fica muito evidente nesta discrepância é o racismo que ainda era muito forte naquela época. Isto fica claro na forma como a tia de Marlow refere-se aos nativos africanos "livrar aqueles milhões de ignorantes daqueles vícios horríveis" e também durante toda a obra.

Esta é a viagem proposta por Joseph Conrad aos meandros das trevas que existem em todo coração humano - a viagem pela decadência e corrupção do caráter de Kurtz e de todos nós.


Eu convido você leitor a embarcar a bordo do Nellie e acompanhar a história contada por Marlow - pois esta é uma história, daquelas que moldam o caráter - e descubra você também quem é Kurtz e faça seu próprio julgamento sobre o que Kurtz simboliza.


FILMES


Apocalypse Now
Existem dois filmes inspirados no livro "O Coração das Trevas"; o primeiro filme é de 1978-1979, no qual Francis For Coppola aplica algumas das ideias de Conrad ao Vietnã (veja entrevista em inglês).


A Maldição da Selva
O segundo filme é de 1993-1994, onde a TNT produziu uma adaptação do livro e cuja tradução para o português é A Maldição da Selva - aliás, foi muito difícil encontrar informações mais detalhadas sobre este filme na internet.

Há também um documentário sobre o livro, o qual está disponível no Youtube. Recomendo bastante este vídeo para quem quiser conhecer melhor a obra de Conrad.


GOOGLEBOOKS


Há uma prévia deste livro no serviço do google - o googlebooks. Recomendo para quem quiser conhecer mais.


É isto aí pessoal. Espero que tenham gostado de conhecer um pouco sobre "O Coração das Trevas".


Até o próximo post.

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